Sejam Santos!

Por Frei Guilherme P. Anselmo Jr.,
missionário inaciano

Neste artigo, Frei Guilherme explica como podemos ser santos. Destaca que é preciso testemunhar o Evangelho e amar de verdade, como Jesus fez. O religioso que trabalha na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, do Setor Tremembé, também explica como se dá o processo de canonização, como foi o caso recente de Santa Dulce dos Pobres.

Frei Guilherme

O povo de Deus, da Antiga Aliança, num determinado momento de sua história, estava reorganizando sua vida e sociedade, reconstruindo seus códigos morais e leis, combinando como seriam seus cultos e fazendo memória de sua história de superações e esperança, depois de terem enfrentado tempos muito difíceis. Estou me referindo ao livro do Levítico, lá no Pentateuco. E numa certa parte do livro, em meio a listas e preceitos, o povo se lembra de um convite de Deus. Era um convite amoroso e ousado: “sejam santos, porque eu sou santo”. (Lv 11,45)
Como poderíamos imaginar ser santos como Deus? Como isso seria possível se consideramos nossa fraqueza e imperfeição? Como podemos ser comparados com o próprio Deus?
Perguntas difíceis assim só podem ser respondidas pelo Mestre. No Evangelho segundo Mateus (5,43-48) nosso Mestre Jesus responde. Para sermos santos como Deus é preciso amar de verdade. E para Jesus, amar de verdade não é ter um “sentimento” por alguém, nem carregar um “afeto” ou se “emocionar”. Amar, para Jesus, é de graça mesmo. Pode até ser sem sentimento ou emoção. Por isso, ele manda amarmos os nossos inimigos. Não gostamos dos inimigos, não temos sentimentos bons por eles, nem afetos ou emoções boas. Mas Jesus ensina que isso não importa para quem quer amar. Portanto, para nosso Mestre, amar é fazer o bem para os outros, promover a vida dos outros, a justiça com os outros, a paz para os outros, inclusive quando os outros são inimigos e especialmente quando os outros são mais frágeis. Isso é ser santo: amar de verdade. E foi isso que Jesus fez. E dessa vez, diferente do Antigo Testamento, não é uma voz que vem do céu, nem um anjo, nem um trovão, nem um espírito. Quem ensina isso é uma pessoa mesmo, igual a nós. Não temos mais a desculpa de que isso é “impossível”. Se Jesus fez, nós podemos fazer.

São Pedro: mártir, crucificado em Roma de cabeça para baixo


Nos primeiros séculos da história de nossa Igreja, muitos dos nossos irmãos morriam assassinados pelo governo, porque era crime ser cristão. Mas, se quisessem, eles poderiam se salvar, bastava negarem a fé, disfarçarem suas opiniões e seguirem suas vidas. Mas aquelas pessoas corajosas nos ensinaram que há valores que não se negociam nunca. A verdade é um desses valores. Os mártires deram testemunho da verdade e morriam como o Mestre Jesus também morreu, mártir. Aqueles homens e mulheres foram sendo considerados santos pela comunidade porque amaram de verdade como Jesus ensinou. Foram semente e fermento. Ninguém os esqueceu, jamais. Foram e serão para sempre lembrados e comemorados. Já no século V, a Igreja conduzia um processo de investigação para dar clareza e firmeza na declaração de um santo mártir, na dedicação de um altar onde a missa era celebrada sobre as relíquias desse santo etc.
Quando a perseguição foi diminuindo até o cristianismo deixar de ser crime, outros homens e mulheres de fé que viveram uma vida exemplar, de ensinamento e propagação da fé, de oração e de testemunho cristão também foram sendo considerados pelas comunidades locais como santos e santas, como modelos de vida e intercessores. Normalmente eram os bispos que conduziam essas investigações e faziam tais declarações. Com o tempo, outras comunidades iam tomando conhecimento e também passavam a celebrar essas comemorações.
A partir do século XII, essas investigações e declarações passaram a ser feitas somente por um determinado bispo: o bispo de Roma, a Sé Apostólica, a quem nós chamamos de Papa. Assim, a declaração passou a ter um alcance maior e mais rápido para todas as comunidades que estão em comunhão. Desde então, muitos documentos e regulamentos foram preparados para organizar esses processos de investigação e declaração de homens e mulheres santos, “que amaram de verdade”.

Hoje em dia, estão válidos os regulamentos constituídos em 1983. O processo se chama “canonização”. Essa palavra tem a ver com “cânon” que significa “lista”. Isso porque a pessoa que é “canonizada” entra na “lista” dos santos e santas comemorados por toda a Igreja Católica Apostólica Romana e todas as outras 23 Igrejas Católicas Sui Iuris que estão em comunhão plena com Roma.

Quais são as etapas de um processo de canonização?

1 – “Servo de Deus”
O processo de canonização começa na Igreja local, na Diocese. Um bispo dá permissão para abrir uma investigação sobre as virtudes de alguém que vem sendo aclamado pelos irmãos na fé. Normalmente, espera-se pelo menos 5 anos após a morte para que o processo seja iniciado, se bem que o Papa, pode encurtar essa espera. (como foi feito no processo da Santa Teresa de Calcutá pelo papa João Paulo II, também para Lúcia Santos, e para o próprio papa João Paulo II pelo papa Bento XVI). Em seguida tem início uma pesquisa sobre tudo o que for encontrado sobre tal pessoa: o que fez, o que disse, o que escreveu, as testemunhas oculares são ouvidas etc. Se o resultado desse primeiro passo é positivo, então o bispo apresenta o candidato como “Servo de Deus” à Congregação para as Causas dos Santos da Cúria Romana. Nesse momento é designado um postulador que será responsável para aprofundar ainda mais essa investigação. Em algum momento, é concedida a permissão para que o corpo do Servo de Deus seja exumado e examinado. Nessa fase é importante comprovar que não haja nenhum culto supersticioso ou de alguma forma impróprio àquele Servo de Deus ou a seu túmulo. As relíquias são coletadas e preservadas.

2 – “Venerável” ou “Heróico na virtude”
Quando evidências suficientes são coletadas, a Congregação recomenda ao Papa que proclame a virtude heróica do Servo de Deus; isto é, que o Servo de Deus exerceu em grau heróico as virtudes teológicas da fé, esperança e caridade e as virtudes cardeais da prudência, justiça, fortaleza e temperança. Um Venerável ainda não tem um dia de festa, a permissão para erguer igrejas em sua homenagem ainda não foi concedida, e a Igreja ainda não emitiu uma declaração sobre sua presença provável ou certa no céu. Por outro lado, materiais devocionais podem ser usados, inclusive para orar pedindo um milagre pela intercessão do Venerável como sinal da vontade de Deus de que a pessoa seja canonizada.

3 – “Beato” (bem aventurado).
Chamamos de “beatificação” quando a Igreja afirma que o Venerável está salvo, no céu. Se for um mártir, o Papa precisa apenas fazer uma declaração de martírio, certificando que Venerável deu sua vida voluntariamente como testemunha da fé ou em um ato de caridade heróica por outros. Se não for um mártir, então será um “confessor” porque confessou, testemunhou a fé com a vida que viveu. Nesse caso é necessário provar que Deus realizou um milagre por intercessão dessa pessoa. Há uma rígida e longa investigação para isso. Se é declarado “beato”, então é designado o dia de sua festa que poderá ser celebrada somente na Diocese ou nos locais de origem do beato.

4 – “Santo”
Normalmente, quando são provados mais dois milagres realizados por Deus pela intercessão do beato confessor. Se for um beato mártir, apenas um milagre é necessário ser provado.

Há também uma canonização chamada de “extraordinária”. Ela é declarada no caso daqueles santos para quem não é mais possível fazer nenhuma investigação, pela distância do tempo ou falta de documentos. Nesse caso, a Igreja se baseia nos fatos históricos e na devoção que se tem àquela pessoa desde tempos muito antigos. Um exemplo de um processo assim é São José de Anchieta.
Tenhamos sempre diante dos olhos os santos. São modelos de vida que entusiasmam e animam, são nossos irmãos intercessores junto de Deus. Enquanto isso, busquemos trilhar os mesmos caminhos que eles trilharam, cada um na sua história, sempre dispostos à santidade: amar de verdade!
Todos os santos e santas de Deus, rogai por nós!

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