Notícias da paróquia › 20/11/2020

Por que Dia da Consciência Negra?

Neste 20 de novembro, publicamos uma entrevista com o jornalista e escritor Oswaldo de Camargo. Ele tem 84 anos, mora no Lauzane Paulista e é um dos intelectuais mais importantes da Literatura Negra em São Paulo. Oswaldo também é um católico atuante. Toca órgão na igreja Santo Antônio há muitos anos. Abaixo, uma conversa em que o jornalista fala da infância em Bragança Paulista; do ativismo no Movimento Negro; do episódio em que foi barrado no elevador social e do otimismo em relação ao fim do preconceito e do racismo.

Por Edmilson Fernandes

Oswaldo de Camargo, jornalista e escritor

O que é ter Consciência Negra em 2020?
Oswaldo de Camargo:

Neste ano, no dia 13 de maio, chegou-se aos 132 anos da assinatura do documento que tornava pública a abolição da escravatura no Brasil, um dos momentos mais decisivos de nossa história. Com a abolição – pretendia-se -, o país daria início à sua sonhada modernização. A escravidão travava toda a pretensão de nos vermos como modernos, dialogando com a Europa, sobretudo com a França, modelo principal de nossa cultura.
Extinta a escravidão, o país poderia sentar-se à mesa com o Velho Continente, que já havia dado à civilização grandes gênios em todos os campos do saber, da música, da literatura e, glória para a cristandade, grandes santos cujas vidas iluminavam o mundo.
E o negro? Livre, seguiria seu caminho como cidadão, com a garantia da República, que aqui se instauraria a partir de 1889. República: coisa pública, para todos.
Mas o negro ficou praticamente à margem; para ele a República não aconteceu como devia acontecer.
Então, quando se indaga hoje, em 2020, o que é ter consciência negra, minha resposta é que se trata da convicção de que continua urgente repor o sentido de uma verdadeira liberdade, aquela que a República não teve interesse nem coragem de implantar nesses quase 150 anos.
Sendo 2020 um ano excepcional no debate da questão negra, devido a acontecimentos de barbárie que frequentaram a mídia mundial, urge que, sobretudo os que se julgam regidos pelo Evangelho, não se excluam de se conscientizar dos malefícios que persistem em nossa sociedade devido a uma abolição mal feita, um autêntico cavalo de Troia, nas palavras do poeta negro Carlos de Assumpção: “Foi um cavalo de Troia/ a liberdade que me deram./ Havia serpentes futuras debaixo do manto de entusiasmo”.

VIDAS NEGRAS IMPORTAM
A morte do negro George Floyd em Minnesota, nos Estados Unidos, causou uma onda de indignação depois da divulgação de um vídeo que mostra um policial branco ajoelhado no pescoço dele.

Relate um pouco a sua participação no Movimento Negro em São Paulo:
Oswaldo de Camargo:

Minha participação no Movimento Negro em São Paulo se dá com a Literatura que tenho escrito desde meus 22 anos. Acredito no poder da palavra.
Quando escrevi meu poema Em maio, não tinha noção de como ele poderia levar a pensar sobre o que boa parte de negros do país já estava vendo como a falácia de uma abolição mal feita. Quando escrevi: “Já não há mais razão para chamar as lembranças/ e mostrá-las ao povo/ em maio”, empreendi com esses versos minha crítica a uma data que se mostrou, por muito tempo, gloriosa para o país, para o negro. Minha participação no Movimento Negro, repito, é com a Literatura que escrevo.

Conte um pouco da sua infância e como viria a ser escritor:
Oswaldo de Camargo:

Posso dizer que sou consequência de uma infância passada na cidade de Bragança Paulista, uma cidade que se enriqueceu no final do século XIX com a produção do café. Nasci perto de um casarão construído em 1881. A fazenda em que nasci chegou a ter mais de 300 mil pés de café.
Minha Literatura está marcada por essas circunstâncias, pois a enorme riqueza dos donos se confrontava absurdamente com a miséria dos colonos, sobretudo os colonos pretos. A única saída era a miséria. Essa realidade, transfigurada, tentei pôr em vários contos que escrevi, mas aparece com mais nitidez em minha novela Oboé, publicada pela USP.

Qual foi a última vez que você sentiu o racismo?
Oswaldo de Camargo:

Sou observador; preciso ser para escrever. A última vez que sofri ato racista já vai longe, da maneira mais comum, mais frequente: barrado para não usar elevador social. Vai longe, mas digo que o ato mais insidioso continua sendo o não reconhecimento de que você é igual ao homem branco, em qualidade, em defeito. No entanto, ainda hoje encontro pessoas que veem assim: se você tem qualidade, sobressai, você é um preto de alma branca…; seus defeitos, no entanto, são da sua raça; você não poderia deixar de tê-los, devido à sua raça. É cruel.

Você tem 84 anos de idade. Com tantos casos de racismo no Brasil depois de mais de 130 anos da abolição da escravatura no país, você ainda se sente um otimista em relação ao fim do preconceito e da discriminação dos pretos?
Oswaldo de Camargo:

Ter 84 anos é uma grande responsabilidade. O ser humano é uma construção que começa a ser feita desde os primeiros anos. Quando falo em responsabilidade é que você deve esforçar-se muito para não se tornar velho, mas continuar apenas idoso. Responsabilidade, porque o que você conseguiu juntar observando os homens e o mundo tem que ser útil para os mais novos. O velho não presta para essa ação, porque muitas vezes ele se agarra apenas às suas perdas, ao que já se foi. É um triste; quanto ao idoso, sonha ter a alegria de uma criança, e luta para isso.
Sou, então, otimista, em relação ao fim do preconceito e da discriminação. Isso não vai acontecer de repente. Sei que o pensamento do escritor francês Charles Marvel: “Só existem duas raças, a boa e a má, em toda a parte misturadas” é difícil de cumprir-se, mas deve ser tentado.
Minha parte quero continuar realizando com minha literatura. E, como negro, confesso: meu pensamento que mais me agrada é este: “Que minha alma se mostre, a qualquer tempo, e fulja sobre o negror de meu corpo”.

A Companhia das Letras vai relançar obras suas no ano que vem. Qual é a importância desse projeto pra você e para o movimento negro?
Oswaldo de Camargo:

A Companhia das Letras vai relançar em 2021 três livros meus, dois em março e um no segundo semestre. Em março se publica 15 Poemas negros, que tem um prefácio histórico do grande sociólogo e professor Florestan Fernandes. São poemas que escrevi quando ia nos meus 23, 24 anos. O segundo é o volume de contos O Carro do Êxito, que foi minha estreia na prosa, em 1972. No segundo semestre deve ser publicada minha novela A Descoberta do Frio.


É um projeto extraordinário não só para mim, mas para todo o Movimento Negro, do qual, repito, participo escrevendo. Uma editora do porte da Companhia das Letras abrir-se para autores negros que, quando publicam, chegam a isso quase sempre com um esforço descomunal, é motivo para comemorar.
Creio no poder da Literatura para a conscientização de negros e brancos neste país tão desigual. Cristão que sou, creio que Deus me deu essa ferramenta intelectual para que eu a use bem. Esta é a minha responsabilidade quando alcanço os meus 84 anos.

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