Notícias da paróquia › 21/09/2020

Como combater o capacitismo contra a pessoa com deficiência

Você já dirigiu ao acompanhante de uma pessoa com deficiência física em vez de se dirigir diretamente à própria pessoa? Essa é uma postura capacitista. O capacitismo é a discriminação e o preconceito social contra a pessoa com deficiência. Em ambientes capacitistas, a deficiência é vista como algo a ser superado.
Neste Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, ouvimos a palavra de duas jovens universitárias que lutam contra o capacitismo: Letícia Galatro, de 20 anos, estudante de Jornalismo na PUC São Paulo. Ela tem mobilidade reduzida. E Daniela Luiza Soares, de 22 anos, deficiente visual e estudante de Psicologia em Minas Gerais. Letícia tem canais nas redes sociais onde fala sobre o tema. Daniela falou sobre o capacitismo nas igrejas.

Abaixo, a entrevista com Letícia Galatro:

Letícia Galatro Alves, 20 anos, estudante de Jornalismo e pessoa com deficiência

Site Igreja São Pedro: Fale da sua deficiência:
Letícia Galatro:
Eu tenho uma dificuldade de locomoção conhecida como Mobilidade Reduzida. No meu caso, devido ao encurtamento dos tendões, eu estico menos o joelho, ando mais devagar e levanto menos o pé ao caminhar. No entanto, caminho sem auxílio.
Minha deficiência foi gerada por complicações da prematuridade.

Você era tratada de forma diferenciada pela família?
Letícia Galatro:
Quando eu era pequena, meus familiares possuíam uma superproteção por mim por causa da deficiência, mas com o passar do tempo essa proteção foi diminuindo e, no geral, eu sou tratada da mesma forma que os meus primos. Eu acredito que o tratamento igualitário que eu recebi foi fundamental para o meu desenvolvimento porque ser tratada igual aos meus primos me impediu de ver a deficiência como um fator limitante. Fui ensinada que independentemente da minha condição física, eu podia alcançar tudo que eu queria e isso me deu muita força e foi excelente para o meu emocional, principalmente durante a adolescência, uma fase na qual eu me importava muito com a aparência do meu corpo.

Cite um exemplo em que você sofreu preconceito por causa da deficiência:
Letícia Galatro:
Quando eu tinha 13 anos e estava no nono ano do fundamental II, o professor de educação física da escola me proibiu de participar da aula dele, dizendo que eu não era capacitada o bastante. E mesmo com a reclamação dos meus pais, dos meus amigos e minha, a escola não fez nada a respeito.

Quando você começou a entender que o capacitismo era um problema para as pessoas com deficiência?
Letícia Galatro:

Quando eu fui privada de fazer coisas que eu queria e tinha capacidade de fazer. O Capacitismo passou a me afetar quando eu percebi que as pessoas prejulgavam minhas competências sem me conhecer.

O que as pessoas sem deficiência podem fazer contra o capacitismo?
Letícia Galatro:

A primeira coisa é buscar informações. A melhor forma de acabar com preconceito é entendendo por que isso é errado, buscando se desconstruir e entender. O segundo passo é apoiar pessoas com deficiência para que as vozes delas ganhem forças e não sejam silenciadas. As pessoas com deficiência são capazes e devem falar por si próprias. O terceiro é apoiar divulgar o trabalho de pessoas com deficiência para que isso alcance cada vez mais pessoas. O quarto passo é a capacitação. A partir do que a pessoa aprendeu com as informações que buscou, ela vai se autocapacitar e capacitar os ambientes para que eles estejam aptos a receber pessoas com qualquer tipo de deficiência. O quinto passo é desconstruir os padrões de beleza para que a gente normalize os corpos com deficiência.

O que o preconceito já te impediu de fazer?
Letícia Galatro:

O preconceito já me impediu de usufruir de serviços que são meus enquanto cidadã, como por exemplo, o vagão especial do metrô ou a exclusividade em filas. As pessoas não respeitam. Todas as vezes que eu fui tentar entrar no vagão especial do metrô estava superlotado com pessoas que não têm deficiência. Eu não consegui sentar e fui empurrada diversas vezes. Também já tive dificuldade em frequentar ambientes ou ônibus pela falta de acessibilidade. Já tive minha capacidade questionada em público, como na aula de educação física.

O que você diria para uma pessoa com deficiência que se sente diminuída em relação às pessoas sem deficiência?
Letícia Galatro:

Apenas você pode ditar seu valor. Você precisa reconhecer e amar os aspectos que destacam a pessoa incrível que você é. A deficiência é só mais uma das muitas características que você possui, ela não te define.

Quais os seus projetos para combater o capacitismo?
Letícia Galatro:

Meu primeiro projeto foi escrever uma redação sobre como o preconceito interfere na vida e no psicológico das pessoas com deficiência. Essa redação ganhou o concurso de redação do Colégio Dante Alighieri, onde estudei.
Meu maior projeto agora é o canal Acessibilizando (https://www.facebook.com/aacessibilizando), que eu criei para levar informações sobre pessoas com deficiência para o mundo. Assim as pessoas podem repensar as questões que envolvem essa temática e ajudar na quebra dos preconceitos.
(No final desta reportagem, Letícia dá dicas de onde buscar informações)

DEFICIENTE VISUAL CRITICA O CAPACITISMO NAS IGREJAS

A reportagem do site da Igreja São Pedro também conversou com a estudante de psicologia Daniela Luiza Soares, de 22 anos. Ela é cega e mora na cidade de Coronel Fabriciano, no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Daniela nasceu cega pelo fato da mãe ter contraído rubéola durante a gravidez.

A seguir, o depoimento de Daniela ao site da igreja São Pedro:

Daniela Luiza Soares, 22 anos, estudante de Psicologia e pessoa com deficiência

“Nasci em uma família cristã e cresci dentro da igreja. Já passei por muitos momentos de oração e conversas sobre cura, e apesar disso, de uma certa forma, me causar desconforto, constrangimento e até crises de fé, eu não sabia como me expressar sobre. Só sabia que aquilo não me fazia bem.
Em 2016 conheci pela internet um grupo de amigos, todos mais ou menos da minha idade; todos deficientes visuais. Isso foi muito importante para que eu começasse a me entender como uma PCD, entender minhas angústias e que o problema não estava em mim. Comecei a compreender o que era o capacitismo.
Outro fator que me ajudou muito nesta jornada de aceitação foi meu ingresso na faculdade. Até a conclusão do ensino médio, eu tinha uma pessoa de apoio. Ela anotava as coisas que o professor passava no quadro, lia os livros e transcrevia para mim. Já na faculdade eu decidi que iria tentar aumentar minha independência e frequentaria as aulas sozinha. E assim fiz. E funcionou! Os professores me receberam muito bem. Tive alguns problemas com o acesso aos materiais, mas nada que conversando eu não pudesse resolver.
Em 2019, sofri pela primeira vez, dentro da igreja, uma situação de capacitismo descarada. Em um retiro de carnaval, eu ouvi da boca de um pastor que “as deficiências são fruto de pecado dos pais.” Quer dizer, um castigo. O comentário não foi direcionado a mim, mas me causou uma revolta tão grande! Ali entendi que eu nunca fui ensinada a me amar, a me aceitar; porque ao mesmo tempo que diziam para mim que Deus me amava do jeito que eu era, me diziam para orar por cura, repetiam este tipo de discurso no altar.
Depois desse episódio, comecei a refletir sobre minha vida cristã e tudo que havia vivido com esse discurso, muitas vezes sutil, outras nem tanto; no lugar das PCdS na igreja. Lembro que quando estava sofrendo por essas questões, fui procurar na palavra o que Deus dizia sobre, e ele me levou ao Evangelho de João, capítulo 9. Nesta passagem, Jesus cura um homem cego. O que me chamou mais a atenção foi a pergunta que Jesus faz a ele, “o que queres que eu te faça?” Essa atitude de Jesus foi extremamente importante para mim, pois ele perguntou. Geralmente não somos perguntados sobre o que queremos. E, acreditem, nem sempre é a cura, pois nós apenas somos assim. No meu caso, não enxergar é tão comum quanto é para você enxergar.

Decidi participar dessa entrevista porque acho que já passou da hora de nós, cristãos, termos este tipo de pensamento. A Bíblia está cheia de pessoas com deficiência, mas que são lembradas muitas vezes apenas como coitadas; e essa é uma interpretação problemática. Agora vemos as igrejas sendo exemplo de inclusão com os cultos e missas transmitidos em libras, mas não adianta se estas palavras transformadas em sinais continuarem sendo palavras que machucam e oprimem.”
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Dicas de Letícia Galatro para buscar informações:

Canal Acessibilizando
Redes sociais da SMPED (Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência da Prefeitura de São Paulo)
Redes sociais do STENO (grupo pioneiro em trabalhos de acessibilidade)
Redes sociais do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência (CMPD)
Blog do Estadão: Vencer Limites
Site: Web Para Todos
Revista D+
Revista PCD
Vida Mais Livre
Deficiente Ciente
Página de Direitos Humanos do Governo Federal
Redes sociais da Mara Gabrilli.
Redes sociais Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência.
Influencer Mariana Torquato.
Redes socais Todos pela Acessibilidade
Redes sociais do Hand Talk
Influencer Victor di Marco
Redes sociais samantabullock
Influencer jillianmercado
Redes sociais do Moda em Rodas
AACD
Redes sociais do Acessibilidade tô de olho
Instituto icpe
Redes sociais Cid Torquato
Redes Billy Saga
Redes sociais Lablue

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